Letramento Informacional e Ensino-Aprendizagem

Letramento Informacional e Ensino-Aprendizagem

Letramento Informacional e Ensino-Aprendizagem


No artigo “Os jornais e o sistema educacional”, publicado pelo Correio Braziliense em 24 agosto de 2014 (pág. 15), Jaime Pinsky argumenta sobre a importância de os professores ensinarem os estudantes a pesquisarem, fornecendo-lhes orientação sobre fontes de informação confiáveis, para que possam estabelecer conexão entre as informações, dando sentido a elas. A ciência da informação denomina o processo de desenvolvimento da capacidade de buscar e usar a informação eficaz e eficientemente de “letramento informacional”, reconhecendo-o como essencial para a construção do conhecimento nos dias atuais.

O termo letramento informacional foi cunhado na década de 1970, nos Estados Unidos, por Zurkowski, presidente da Associação de Indústria da Informação, em relatório para a Comissão Nacional de Bibliotecas e Ciência da Informação. Para o autor, apenas pequena parcela da população dos EUA realmente compreendia como utilizar a ampla gama de ferramentas de informação para resolução de problemas. A partir daí, muitos esforços têm sido realizados, em muitos países, para a inclusão desse processo nos sistemas educacionais.
Nas últimas décadas, com o grande volume de informação produzida, muitas pessoas não sabem como acessar informações de qualidade — isto é, separar o joio do trigo. Qualquer um pode postar informação na internet, verdadeira ou não. As mídias divulgam informações que nem sempre são interpretadas de forma crítica pela comunidade. Nas redes sociais, nos blogs e sites proliferam informações erradas ou sem comprovação científica. As enciclopédias colaborativas, como a Wikipédia, não possuem especialistas para avaliar a confiabilidade da informação antes que ela chegue aos leitores.
Mais ainda: do ponto de vista acadêmico, observa-se a impossibilidade de o currículo acadêmico cobrir toda a produção científica e tecnológica produzida pela humanidade. Isso porque os investimentos nessa área propiciam mais produção e resultados de pesquisas que, por sua vez, fomentam novos projetos, em um ciclo cada vez mais rápido e difícil de acompanhar.
Por isso, a preocupação em ensinar a buscar e usar informação constitui-se capacidade crucial a ser desenvolvida na sociedade contemporânea. Algumas décadas atrás, o Prêmio Nobel Herbert Simon afirmou, em documento elaborado para o Comitê de Aprendizagem, que mais importante do que memorizar informações sem compreendê-las é saber buscá-las e usá-las para resolver problemas.
O letramento informacional envolve o ensino-aprendizagem de grandes competências a serem desenvolvidas pelos aprendizes, quais sejam: identificar a necessidade de informação; buscá-la e avaliá-la de forma eficaz e eficiente; usá-la para produzir conhecimentos, considerando as questões éticas, econômicas e sociais; bem como saber comunicá-la de acordo com o contexto e as diversas situações.
Tais competências se desdobram em diversas habilidades, que devem constar no currículo escolar da educação básica e do ensino superior. Alguns autores argumentam que os conteúdos devem ser trabalhados transversalmente ao currículo acadêmico. Contudo, há evidências na literatura da área de que a melhor forma de trabalhar deveria ser por meio de projetos de pesquisa ou resolução de problemas.
Assim, o letramento informacional, por abranger componentes como processo investigativo, aprendizado ativo, pensamento crítico e o aprender a aprender, possibilita aprendizagem significativa e duradoura. Nesse processo, a biblioteca assume papel fundamental e deve estar envolvida nas práticas pedagógicas, atuando como centro de recursos de aprendizagem. É um espaço privilegiado, que propicia o lidar com vários tipos de informação e pontos de vistas, fomento à leitura, o estudo colaborativo e atividades culturais.
As experiências internacionais nos revelam que o letramento informacional é um processo e ferramenta poderoso na aprendizagem. Contudo, no Brasil ainda é pouco difundido. Isso mostra que, mais uma vez, o sistema educacional brasileiro precisa de investimentos em infraestrutura, com inclusão de bibliotecas escolares de qualidade, planejamento que envolva a formação de professores e mudanças na concepção de ensino-aprendizagem, bem como monitoração constante do processo. Mais ainda: precisa de uma sociedade que exija educação de qualidade!
Autora: 
Professora do Programa de Pós-Graduação em ciência da informação da Universidade de Brasília (UnB)

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